Policiais militares de Apucarana e diversas cidades da região, que optaram por não serem identificados para não sofrerem retaliações, informaram nesta semana que a escala de serviço foi alterada em todo o Paraná, o que teria gerado um aumento da carga de horária mensal de trabalho. Eles também reclamaram da falta de aumento salarial ao longo das últimas décadas. Segundo fontes do 10º Batalhão de Polícia Militar (BPM), por ordem do comando geral da corporação, em Curitiba, os praças tiveram a jornada de trabalho aumentada de 144 horas/mês para 168 horas mensais de serviço, fora eventuais escalas extras.O motivo da mudança, conforme alguns policiais militares é a falta de efeitvo. Segundo fontes do próprio Comando do Policiamento do Interior, em Curitiba, no ano de 1983 o 10º BPM contava com 650 homens e naquela época a população regional era menor. "Hoje a densidade demográfica aumentou significativamente no Vale do Ivaí, mas o contingente do 10º BPM é de 390 homens", afirmou o presidente do Conselho Comunitário de Segurança de Apucarana, o tenente da reserva Antônio Glênio de Oliveira Machado. "Quem não cumprir a nova escala de trabalho será punido com prisão, conforme prevê o Regimento Disciplinar do Exército (RDE), código adotado também pela PM. E um detalhe: o aumento da jornada não vai ser remunerado", observou um soldado que optou pelo anonimato.
Outra questão que está deixando a tropa insatisfeita é a da remuneração. Um soldado da PM recebia 7,8 salários mínimos no final do governo Mário Pereira, do PMDB, vice de Roberto Requião na gestão 1991-1994, que assumiu o governo. Hoje esse mesmo soldado recebe três salários mínimos, o que representa achatamento salarial superior a 100% acumulado ao longo dos últimos 21 anos. O comando do 10º BPM e a cúpula da PM do Paraná não quiseram se manifestar sobre o assunto.
Atividade é uma das mais estressantes
A atividade policial é considerada por especialistas do comportamento humano como uma das mais estressantes. Por exercer trabalho de alto risco, envolvendo-se em conflitos de interesse todos os dias, o policial está sujeito a alterações constantes das condições psicológicas, o que altera substancialmente seu estado emocional e gera elevada tensão. Não são raros os casos de suicídios de policiais.
Em Campo Mourão, na região central do Estado, um integrante da corporação paranaense também tirou a própria vida no interior do fórum do município. Já em Apucarana, seis policiais já se suicidaram nos últimos anos. Hoje cerca de 30% da tropa de 400 homens do 10º Batalhão de Polícia Militar (BPM) apresenta sintomas agudos de estresse, conforme constatação médica.
O comandante do 10º BPM, tenente-coronel Joacir José da Silva, relaciona os conflitos familiares e as situações de confronto como alguns fatores que contribuem para o colapso nervoso. "Não são poucas as vezes que um policial é submetido a ofensas, humilhações e até agressões, sendo impedido de extravasar pelo dever de servir. Infelizmente a opinião pública pouco se preocupa com o estado emocional dos responsáveis pela segurança da sociedade, fixando-se apenas no aspecto legal e jurídico das suas ações profissionais", desabafa o oficial.
COBRANÇA
Segundo o tenente-coronel, o público cobra muito da polícia. "Ninguém se lembra que o policial não é simplesmente uma máquina, e sim um ser humano e, portanto, sujeito às suas fragilidades, como o medo, à insegurança, à dor, ao prazer, à satisfação e também ao desgosto, que pode levar até ao suicídio", observa Joacir. O oficial frisa, no entanto, que nos últimos anos não há registro desse tipo caso no 10º BPM porque a unidade militar vem desenvolvendo programas específicos de combate ao estresse.
Policial afirma que ritmo de vida "é muito frenético"
Um cabo do 10º BPM que está na corporação há mais de 20 anos e preferiu não se identificar explica que durante o trabalho noturno o policial fica mais exposto a fatores adversos. "Dá uma sensação esquisita, de vazio. Pelo rádio, a gente ouve o que está acontecendo; às vezes tem uma pessoa morrendo e outra matando. Isso vai entrando em você", relata. Segundo ele, quando uma pessoa chama a PM, quer alguém preparado para atender. "Nesse momento ninguém pensa nas vulnerabilidades humanas do militar. É muito fácil ficar do lado de lá apontando os erros da polícia do que trabalhar bastante, arriscar a vida, ganhar pouco e ser muito cobrado", protesta.
O militar confidencia que as ocorrências envolvendo crianças o deixam um pouco apreensivo. "Muitas vezes precisamos atender casos complicados em que as vítimas são crianças. Penso que poderia ser um dos meus filhos e tem hora que a gente se envolve demais", revela. O cabo acha importante participar de atividades que reduzam o estresse, como a meditação e a prática de educação física.
Dores de cabeça, aftas e herpes são alguns dos efeitos do esgotamento mental já sentidos pelo policial do 10º BPM. "A afta e a herpes podem aparecer em momentos de muito estresse. O certo é iniciar um tratamento para que a pessoa possa relaxar o mais rápido possível", recomenda o psicólogo Carlos Alberto Matiuzzi. Quanto à dor de cabeça, Matiuzzi explica que essa também pode ser causada pela tensão. "Isso acontece porque, quando ficam tensas, essas pessoas têm o costume de apertar os dentes uns contra os outros, o que provoca desconforto", detalha o psicólogo.
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